… nem traduza palavra por palavra, (como um) fiel intérprete….
Esse verso é interessante por vários motivos. O foco central é o “fidus interpres”, o fiel intérprete, o fiel tradutor.
Em primeiro lugar, na Antigüidade Clássica, para dizer “tradutor” as pessoas diziam “intérprete” (latim: interpres). Curiosamente, isso é o contrário do que acontece hoje em dia. Quando alguém precisa de um intérprete geralmente diz: — Chamem o tradutor! Não é raro um intérprete ter de explicar para o cliente desavisado que não é tradutor, e vice-versa. Mas mesmo tendo profissões distintas, tradutores e intérpretes fazem, afinal das contas, a mesma coisa: traduzir.
E em segundo lugar, no trecho acima Horácio rejeita a tradução palavra por palavra, personificada na figura no fiel intérprete/tradutor. Hoje, muitos séculos depois de Horácio, ainda há gente que acredita no mito da tradução literal (que nada mais é que a tradução palavra por palavra). Basta lembrar das críticas que recebe quase todo título de filme traduzido do inglês para o português; as pessoas que sabem um pouquinho de inglês esperam que o título do filme seja traduzido literalmente e costumam reclamar da tradução “errada”. Mas é aí que reside a grande verdade da tradução: traduzir bem é sempre um ato de adaptação, não importa o tipo de texto ou discurso. O tradutor técnico, o tradutor jurídico, o intérprete de conferências, o intérprete juramentado etc. sempre adaptam o texto/discurso original ao traduzir. A adaptação é de ordem lingüística, mas também cultural e às vezes até comercial (como muitas vezes ocorre na tradução de textos de marketing e também na tradução de títulos de filmes). É essa adaptação a responsável por grande parte da qualidade de uma boa tradução. Isso não impede, é claro, de a adaptação muitas vezes resultar em traição (“Traduttore, traditore”), mas isso não vem ao caso agora.
É verdade que o sentido original de “fidus interpres” em Horácio é negativo e remete à fidelidade excessiva, isto é, ao tradutor sem imaginação que traduz literalmente. Mas o termo sozinho também pode denotar fidelidade em um sentido mais amplo: fidelidade ao original, que muitas vezes está na contramão da tradução palavra por palavra e exige que o tradutor tome certas “liberdades” e faça certas adaptações.
São Jerônimo, o tradutor da Bíblia que tomou tantas “liberdades” na tradução e apesar disso (ou por causa disso) se tornou o santo patrono dos tradutores, com data comemorativa em 30 de setembro. Aliás, é São Jerônimo que aparece na imagem do cabeçalho do blog e também na imagem que ilustra este artigo, na visão de um pintor flamengo anônimo do século XVI.
É com esse espírito que estou inaugurando o Fidus interpres. Quero mostrar aqui algumas das diversas e às vezes contraditórias facetas do mundo da tradução profissional e divulgar aspectos do trabalho dos tradutores e intérpretes. Em princípio, meu público é formado por colegas tradutores e intérpretes, clientes de tradução e qualquer pessoa interessada em conhecer mais de perto o mundo da tradução profissional.
Portanto, sejam bem-vindos ao Fidus interpres!
Biblioteca do tradutor: | Translator's Bookshelf:
Parabéns pelo novo blogue!
E a arte da tradução se dá nesse pêndulo entre a liberdade e a fidelidade, uma oscilação que visa ao equilíbrio do texto e à sua significação; não à palavra com um fim em si mesmo. Parabéns pelo blog!
Fábio,
Estou aprendendo bastante com seu blog. Parabéns pela iniciativa e obrigada por tantas dicas e informações úteis!
Thaís Darahem
meus parabéns, sua observação é exelente.
Sou estudante de direito e nas horas vagas me dedico a traduzir obras literárias em espanhol.