Os alemães desconhecem o Brasil de uma forma que deixa muito em dúvida o sistema educacional alemão. Em comparação com a ignorância dos brasileiros em relação à Alemanha, acho que os brasileiros saem ganhando em termos de cosmopolitismo (basta comparar a quantidade de vezes que a Alemanha aparece em jornais brasileiros com a quantidade de vezes que o Brasil aparece em jornais alemães), apesar de o Brasil estar atrás da Alemanha em termos de educação. Mas os brasileiros dão, sim, muitos sinais constrangedores de que não sabem do que falam quando dizem algo sobre a Alemanha ou os alemães.
A começar pela língua. Não sei quem inventou que o alemão é a língua mais difícil do mundo. A pessoa que inventou essa besteira nunca se deu ao trabalho de aprender a pronúncia do inglês nem a gramática do português, que são muito mais difíceis que as do idioma alemão. Há anos circula pela internet uma historinha infame, supostamente engraçada, que começa com “A língua alemã é relativamente fácil.” e faz pouco caso das palavras alemãs de dezenas de letras mencionando a palavra “Hottentottenstottertrottelmutteratentäter”. Sempre achei essa historinha de muito mau gosto, mas talvez ela tenha um humor sofisticado demais para eu entender.
Outra besteira é aquela frase de que “só é possível filosofar em alemão“. Eu sou meio suspeito pra falar disso, porque comecei a me interessar por filosofia na minha primeira viagem à Alemanha ao ler um livro de introdução filosófica em idioma alemão. Mas o fato é que o brasileiro acanhado diante da tradição filosófica alemã deveria arregaçar as mangas e pensar em vez de ter preguiça de encontrar (criar!) traduções filosóficas do alemão para o português. Em parte, a falácia de que só é possível filosofar alemão é alimentada pelo hábito das traduções acadêmicas brasileiras cheias de parênteses com os termos originais em alemão e também pelo próprio hábito dos professores de estudar e dissecar os filósofos alemães em vez de produzir filosofia genuinamente nacional sem se ancorar em Nietzsche, Wittgenstein, Marx, Adorno, Habermas e companhia.
E tem um coisa que eu acho muito desagradável, mas que raramente vem à tona no Brasil: a mitificação, idealização mesmo, da cultura alemã por parte dos brasileiros sulistas. Já ouvi alemães dizendo que Blumenau é fake e que ninguém na Alemanha consegue entender um gaúcho falando “alemão”. Mas os gaúchos e catarinenses continuam firmes acreditando que estão preservando a “cultura alemã”, que herdaram a “organização alemã”, que praticam a “pontualidade alemã” etc. Todas essas ideias caem por terra quando se conhece a Alemanha com um pouco mais de profundidade: os alemães são uma das nações mais miscigenadas da Europa (miscigenação de mais de 2000 anos, não de 500 anos, como no Brasil) e essa miscigenação se reflete na diversidade cultural, na culinária, no modo de falar etc., e essa miscigenação torna muito difícil dizer o que é “tipicamente alemão”; na Alemanha a burocracia pode ser muito mais surreal que no Brasil, não por excesso de organização, mas por medo de enfrentar situações novas que não estão nos manuais (experimente fazer um seguro de saúde alemão tendo passaporte brasileiro); e experimente pegar um trem em uma cidade grande alemã, que você vai ver como (não) são pontuais os alemães.
Enfim, a Alemanha é muito diferente da “terra do chucrute” e os alemães estão cada vez mais longe do clichê de “povo frio, sem calor humano”. Aliás, é besteira julgar um povo inteiro com base em indivíduos específicos ou grupos de indivíduos. E quer irritar um alemão do vale do Reno? Então diga que o símbolo da Alemanha é o castelo bávaro de Neuschwanstein (foto acima), de construção relativamente recente e que só é símbolo da Alemanha em certos livros didáticos e folhetos de turismo! É a mesma coisa que dizer a um carioca que o símbolo do Brasil é o Elevador Lacerda, de Salvador.
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Olá, Fábio,
Sou tradutor de alemão também e tenho me tornado leitor assíduo do seu blog que dá várias dicas muito boas. Achei interessante seu texto, mas não concordo com quase nada, então vão ai meus comentários:
Quanto à dificuldade do alemão, concordo plenamente com a conclusão de Mark Twain em “The Awful German Language” de que é possível aprender inglês em 30 dias, francês em 3 meses e alemão em 30 anos. Alemão tem um aspecto que é realmente fácil, que é a pronúncia, já que as palavras são pronunciadas como se escrevem. Mas para mim, que aprendi alemão como segunda língua depois dos 15 anos, não foram suficientes 9 anos de Goethe e 2 meses morando na Alemanha para dominar completamente as regras gramaticais mais tensas, como as declinações, para não falar na impossibilidade de saber qual o gênero das palavras. Em todo o tempo que eu estive na Alemanha eu conversava com as pessoas, entendia o que elas diziam, elas me entendiam, mas a todo o momento eu estava falando o equivalente a “a carro” ou “o mesa”, etc. Aliás, aceito quaisquer dicas de como melhorar meu alemão nesses dois aspectos.
Quanto ao mencionado clichê “só é possível filosofar em alemão”, eu respondo com outro clichê de que “algumas verdades só podem ser expressas na língua em que um assunto foi tratado originalmente”. É impossível você falar sobre Kant ou Heiddeger sem pensar nos termos chave do original em alemão como Dasein ou Ding in sich, etc., da mesma forma que seria impossível tratar de Guimarães Rosa sem ter em mente termos do original em português, como jagunço, sertão, etc.
Você fala que a preservação da cultura alemã pelos sulistas é falaciosa porque está comparando as duas culturas com a Alemanha “de hoje”; pense da seguinte forma, a imigração alemã começou no Brasil desde o século XIX, então é preciso entender que o que chegou até eles foi a cultura que existia naquela época e a partir daquela época a cultura deles vai sendo preservada (ou desdobrada), tudo o que ocorreu na Alemanha após isso é estranho a eles. De acordo com o que vc disse, os teuto-brasileiros do sul deveriam se atualizar para se manterem fiéis ao que a Alemanha é hoje, como se a Alemanha de hoje fosse superior aos descendentes de alemães do RS. Eles preservam sim a cultura alemã, provavelmente até mais do que na própria Alemanha, até pq não passaram pelo trauma que foi a II Guerra e não se sentem mal de se ater aos valores verdadeiramente germânicos (na minha opinião aliás, beira a loucura o sentimento de culpa dos alemães devido à II Guerra e eu acho até que a crescente miscigenação lá existente decorre dessa culpa que existe até hoje).
Além disso, as línguas são algo dinâmico, que mudam devido a diversos fatores, entre eles o tempo e a localização. Nem por isso a variedade de alemão falada no RS é inferior ao alemão falado na Alemanha, muito importante ter isso em mente, nenhuma língua é inferior a outra.
Quanto ao Neuschwanstein, eu não entendi direito se vc é “contra” o castelo mais bonito do mundo, mas o fato é que eu já ouvi mesmo alguns alemães dizendo que acham o castelo forçado ou algo assim. Eu não acho que seja uma questão de fazer competição entre os pontos turísticos. Eu tb prefiro a Av. Paulista em relação ao Cristo Redentor. Apenas aceitem que o castelo é um incrível monumento da cultura germânica e uma edificação sem par no mundo inteiro.
Ola, Fabio,
Resolvi visitar o seu blog tambem. Lendo este texto, pensei tambem no Mark Twain, mas ai vi o comentario do Leandro e tenho que concordar com ele. Ate aqui, quem ‘e da Bavaria muitas vezes nao entende quem ‘e do Norte e vice-versa, quanto mais achar que os alemaes do sul do Brasil tem que ser entendidos. Isso se chama colonizacao. E ‘e por isso que portugues do Brasil e de Portugal sao tao diferentes tambem. Pra mim, que fui ( ou sera que ainda sou?) professora de ingles com licenciatura em portugues e ingles, posso te dizer que estou cortando um doze para aprender alemao. Talvez por falta de tempo, pelo fato de depois dos quarenta o cerebro nao ser tao absorvente, por nao conseguir ser disciplinada o suficiente para ser auto-didata, por ate agora nao ter tido aulas com professores que tivessem uma didatica como eu aprendi a ter quando dava aulas na Cultura Inglesa, ou simplesmente por falta de vontade por nao gostar da lingua apesar de adorar o pais. Acho que a chave esta em gostar da lingua, mais do que a necessidade de aprende-la porque, convenhamos, essa lingua ‘e um porre (levado com todos os tipos de cerveja alemas possiveis.) hihihi. Meu marido diz uma coisa interessante: se voce der um documento que chega pelo correio para dois ou tres alemaes lerem, eles te darao informacoes, muitas vezes diferentes ou ate divergentes. E se se tratar de Filosofia, entao!!! Ja aconteceu isso com voce, numa traducao?
Eu moro bem na beirinha do Reno e nunca vi nenhum dos meus vizinhos fazerem qualquer cara estranha quanto aos simbolos alemaes (exceto, ‘e claro, os que todos ja sabem). Pelo contrario, acho que os alemaes tem um senso menos bairrista do que paulistas, cariocas ou santistas.
Vou falar sobre o que acho da lingua alema no meu blog.
Bjs.
Prezado Fabio:
São muito pertinentes os comentários que V. faz sobre a relação entre a Alemanha e o Brasil. É a pura verdade o que V. diz sobre a idealização da Alemanha no sul do Brasil. Uma Alemanha que não existe, pois, a maior parte dos que manifestam esse comportamento jamais esteve na terra de Goethe, tudo o que se sente é puramente fruto da imaginação: partindo de histórias que os avôs contaram, muitos foram montando em sua cabeça essa Alemanha idealizada, um país de contos de fada.
É estranho também quando se constata que muitos deles não falam alemão, ainda que se trate de pessoas que vivem numa atmosfera completamente, digamos, bávara, com casas, com festas típicas (Oktoberfest, por exemplo), enfim, que guardam certas tradições que já nem existem na Alemanha, pelo menos da forma com que se conservaram no Brasil.
Uma vez, atônitos, acompanhamos um amigo que tínhamos, que era teuto-brasileiro, na exibição dum documentário da Deutsche Welle, o qual tentava ler as legendas em espanhol, com muito esforço, inclusive pedindo-me orientação sobre certas palavras, por não compreender o que se dizia em alemão, justificando que o alemão que se fala em Santa Catarina, língua da qual ele era um profundo conhecedor, é diferente, não é como na Alemanha. Como era possível que alguém com «aquela cara» pensasse assim!? É quase anedótico, mas é verossímil.
Saudações,
Isac Nunes
Bom dia, Fábio,
Excelente o comentário sobre o modo de vida e a lígua alemães! Foi exatamente esta a impressão quando estive na capital em 2008, ou seja, de que ainda há um clichê (aliás, eles sempre vão existir) dos brasileiros em relação à Alemanha: não encontrei uma só pessoa nativa que tivesse sido “fria”, “insensível”, ou qualquer coisa do gênero. Muito pelo contrário, sempre que pedia informações ou solicitava algum serviço, o atendimento era sempre gentil, mesmo sabendo que eu era estrangeiro (formalmente, porque o país é muito agradável e me senti muito à vontade).
Também sou tradutor de alemão e, ao contrário de um dos comentários acima, a maior dificuldade não está nem tanto na gramática, mas no estilo. O alemão se expressa de uma maneira toda particular, as inversões têm um papel muito mais preponderante do que em português ou em inglês, por exemplo. A meu ver, este é o ‘pulo do gato’.
Agora, confetes: parabéns pelo blog, que está muito interessante! Enquanto não estou aí também, vou matando as saudades da Alemanha através dele.