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Diferenças e semelhanças entre tradutores e intérpretes [Differences and similarities between translators and interpreters]



Em um trecho de um livro que eu estava lendo outro dia, o autor fazia uma comparação entre atores de teatro e atores de cinema. Mal terminei de ler o trecho, e o cérebro já estava a mil por hora com esta ideia: a comparação era perfeita não só para os atores de teatro e atores de cinema, como também para os tradutores e intérpretes. Então, resolvi desenvolvê-la um pouco mais a seguir.

A relação entre tradutores e intérpretes é como a relação entre atores de teatro e atores de cinema. A rigor, tradutores e intérpretes fazem algo em comum: traduzir! Do mesmo modo, atores de teatro e atores de cinema se dedicam, no fundo, à mesma atividade: atuar!

Há muitos denominadores comuns nesses dois pares de atividades. Os atores de teatro e os atores de cinema têm em comum o fato de que precisam saber incorporar o personagem; caso contrário, seu trabalho não será uma atuação. Os tradutores e os intérpretes têm em comum o fato de que precisam dominar os dois idiomas de trabalho; caso contrário, seu trabalho não será uma tradução. Enfim, tradutores e intérpretes têm de ter as técnicas básicas, assim como os atores de teatro e os atores de cinema têm as mesmas técnicas básicas.

Entretanto, é muito difícil encontrar tradutores que sejam ao mesmo tempo bons intérpretes e atores de teatro que sejam simultaneamente bons atores de cinema. Isto porque as enormes diferenças nesses dois pares de atividades se encontram nas técnicas específicas, que acabam influenciando profundamente a postura do profissional. Um ator de teatro acostumado à empostação de voz típica do teatro, com declamações e estilizações e diante de um público, vai ter muita dificuldade em se adaptar ao tipo de atuação “intimista” do cinema, voltada para a câmara e com repetição de cenas até que o diretor fique satisfeito. Da mesma forma, um tradutor acostumado a pesquisar incansavelmente o termo perfeito, revirando dicionários e remexendo inúmeras vezes o texto, vai ter muita dificuldade ao se ver diante dos desafios da interpretação, que se concentra nos aspectos essenciais da mensagem e exige soluções de tradução extremamente rápidas e habilidades cognitivas simultâneas.

Além disso, é perfeitamente imaginável um ator de cinema com problema de memória (e que ganha milhões com sua profissão apesar do problema: ver o caso de Tom Cruise!), mas é impossível imaginar esse tipo de problema em um ator de teatro que precisa decorar 2 horas de texto. Da mesma forma, é impossível imaginar um intérprete com gagueira (já pensou uma palestra sendo traduzida por um intérprete gago?), mas já entre os tradutores esse problema seria perfeitamente normal, porque não afeta a atividade de traduzir textos. O que não pode, enfim, é tradutores e intérpretes com problema de memória, nem atores com gagueira! :-)

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1 comment | comentário

  1. Isac Nunes says:

    Prezado Fabio:

    A maioria dos intérpretes que conheço trabalha em dupla, em cabine, por exemplo, para justamente suprir esses momentos, completamente humanos, de falha ou esquecimento dum termo que, em certas situaçóes sáo essenciais para a compreensáo de toda uma palestra.

    Colegas meus que trabalham nesse ramo como primeira atividade têm o hábito de reunir-se com o interpretado, previamente, para conhecer coisas como o sotaque do indivíduo (e sua regiáo de procedência) e ter, por escrito, pelo menos um resumo do assunto abordado, para que náo sejam pegos de surpresa falando de física nuclear sem nunca ter visto nada sobre o assunto. Com isso, o intérprete tem a possibilidade de, em casa, procurar termos desconhecidos, familiarizar-se com o vocabulário utilizado, para ter pelo menos um verniz sobre o tema abordado.

    Saudaçóes,
    Isac Nunes

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