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Entidades profissionais de tradutores e intérpretes [Professional organizations for translators and interpreters]

By Fabio M. Said | Jan 22, 2010 | Categories: português, translation|tradução | 1 comment


Muito tradutor não sabe, mas é bom saber: existem entidades profissionais que representam tradutores e servem como ponto de socialização e articulação para a nossa classe profissional. Em geral, essas entidades são criadas na forma de associações profissionais, enquanto outras poucas existem na forma de sindicato. Além disso, essas entidades de tradutores, embora tenham o objetivo de representar uma classe profissional, nem de longe são realmente representativas – até porque existem várias entidades concorrentes em cada país e em nível internacional.

Aqui na Alemanha, por exemplo, existe a BDÜ (Verband der Deutschen Übersetzer), que mantém diversas entidades regionais, a ATICOM (Assoziierte Dolmetscher und Übersetzer in Norddeutschland), criada por um grupo dissidente da primeira), a VdÜ (Verband deutschsprachiger Übersetzer literarischer und wissenschaftlicher Werke), só para tradutores de livros, com status de sindicato profissional e muitas outras. E todas estas prestam ótimo serviço a seus associados. Além disso, há uma participação ativa dos associados, nas eleições, nas configurações de estratégias políticas, na distribuição de informações, na divulgação etc. Para os tradutores associados, não é uma simples relação do tipo “eu estou pagando, logo você tem de me oferecer isso ou aquilo”.

No Brasil, há as associações regionais de tradutores públicos, duas associações de intérpretes (APIC – Associação Profissional dos Intérpretes de Conferência e AIIC – Associação Internacional de Intérpretes de Conferência) e duas entidades nacionais de tradutores: o SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores) e a ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes). O SINTRA tem andado bastante fraco nos últimos anos, deixando de promover eventos de peso. Além disso, está sendo objeto de uma ação movida pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, que alega formação de cartel(!) – aparentemente, por causa da famosa tabela do SINTRA, lista de preços sugeridos publicada no site do SINTRA como indicativo do mercado de tradução. Quanto à ABRATES, essa associação fundada em 1974 pelo mestre Paulo Rónai e que desde então já passou por algumas reformulações, tem sido mais ativa, inclusive organizando encontros científicos e divulgando as classes profissionais dos tradutores e intérpretes. Mas, infelizmente, a ABRATES não assume maiores responsabilidades – por diversos motivos: falta de verbas, falta de mão de obra, falta de participação dos associados, desinteresse e utilitarismo dos não-associados etc.

Falando especificamente no caso das associações brasileiras e principalmente da ABRATES, da qual sou associado, nota-se um misto de desprezo, escárnio e expectativas irreais de certos tradutores em relação a essas entidades. A cobrança é tanta que chega a ser ingênua. Em parte, as cobranças em relação à ABRATES e outras associações de tradutores se devem a uma atitude de paternalismo de certos tradutores. É fácil expor as fraquezas de uma associação profissional que pretende representar uma classe que é – profunda e indelevelmente – fragmentada e desunida. Não é fácil reunir um punhado de tradutores em torno de uma causa comum: uma reivindicação dos tradutores públicos dificilmente seria benéfica aos tradutores literários, uma exigência dos tradutores que trabalham 100% do tempo como tradutores pode não ser interessante para tradutores para quem a tradução é a segunda, terceira ou quarta atividade ganha-pão, e assim por diante. Face a essa fragmentação e, às vezes, face à antítese entre subcategorias da classe, fica difícil defender as associações.

Mesmo assim, associar-se a uma entidade de tradutores é altamente recomendável. Primeiro, porque lhe dá a chance de conhecer melhor outros associados, colegas de profissão que podem ter coisas interessantes para falar (aliás, mesmo quando deixam de falar, ainda assim eles dizem bastante sobre a profissão!). Socialização e articulação são algumas armas para que o tradutor não caia na armadilha perigosa do isolamento e ensimesmamento, que pode ser fatal para a carreira. Segundo, porque lhe dá a chance de agir politicamente (interprete esse “politicamente” ao pé da letra ou em sentido mais amplo) em defesa de sua profissão e para torná-la mais reconhecida pelo público. Terceiro, porque a associação lhe dá visibilidade perante outros colegas e perante a sociedade. Quarta razão: se você é tradutor em formação ou em início de carreira, filiar-se a uma associação profissional é uma chance de ter contato com a realidade profissional dos tradutores. Quinta razão: associando-se a uma entidade profissional você demonstra seu comprometimento com a profissão que escolheu.

Eu, se fosse você, me associaria a uma ou várias entidades profissionais para tradutores e/ou intérpretes. E se não gostar de nenhuma delas, reflita se você não está tendo expectativas um tanto irreais ou pense se não valeria a pena associar-se para mudá-las para melhor. Afinal, a formação e manutenção de entidades profissionais tem um cunho profundamente político – e a essência da política é: você entra no partido (ou um grupo ou instituição qualquer) para contribuir, deixar a sua marca, fazê-lo avançar, mesmo que ele não seja 100% compatível com suas opiniões pessoais. Além do mais, estando dentro do grupo você terá muito mais credenciais para criticá-lo.

Dica:
Na página de links do Fidus interpres, há uma série de links para diversas entidades profissionais de tradutores em todo o mundo.

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1 comment | comentário

  1. Boa noite, Fabio,

    Achei interessante seu artigo. Não conhecia a origem da ABRATES e isso é algo que me interessa, caso você tenha mais informação disponível e queira compartilhá-la no blog ou em PVT.

    Também gostaria muito de conhecer as formas de organização e as atividades das associações de tradutores da Alemanha que você citou. Acho que a comparação pode render ideias válidas para as associações brasileiras.

    Eu vou continuar discutindo a questão das associações na próxima semana, conforme informei no meu blog, sempre almejando uma discussão aberta e construtiva.

    Falando em coisas “construtivas”, seus artigos tem sido muito úteis para mim. Uso várias das tecnologias recomendadas.

    Abraço desde São Paulo

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