Livro para tradutores | book for translatorsLivro para tradutores | book for translators

Mestres da tradução no Brasil: Paulo Rónai [Great figures in the history of Brazilian translation: Paulo Rónai]

By Fabio M. Said | Feb 10, 2009 | Categories: português, translation|tradução | 2 comments


Paulo RónaiEsta série de posts [publicada originalmente há quase dois anos no extinto blog "Vivendo e Traduzindo"] dedica-se a biografar brevemente tradutores que contribuíram de modo relevante para o reconhecimento e prestígio da tradução e da classe dos tradutores de um modo geral. O primeiro biografado não poderia deixar de ser Paulo Rónai.

Paulo Rónai nasceu em Budapeste (Hungria) em 13 de abril de 1907, filho de família judia. Seu pai, Miksa Rónai, era livreiro, fato que certamente influenciou o jovem Paulo Rónai em sua futura vocação para as letras.

Desde a infância, demonstrava interesse pelo estudo de idiomas. Na adolescência, nutria o desejo de aprender o maior número possível de idiomas, estimulado por um professor que lhe dissera que somente os quinze primeiros idiomas aprendidos é que são difíceis, enquanto os demais poderiam ser aprendidos sem grande esforço. O interesse levou-o aos estudos universitários de Filologia Latina e Neolatina.

Em Budapeste, foi professor de latim e língua italiana, além de se dedicar aos estudos acadêmicos de francês, especializando-se em Balzac com uma temporada na França em 1930-1932.

Seu interesse pela língua portuguesa surgiu a partir da leitura do livro As cem melhores poesias da Língua Portuguesa, ainda na França. Aprendeu sozinho o idioma português, ajudado pela leitura do livro Antologia de Poetas Paulistas. Em seus esforços para aprender o idioma, travou contato com o diplomata e poeta Ruy Ribeira Couto, que lhe esclarecia dúvidas de português e cultura brasileira. Traduziu upara o húngaro ma série de poemas de autores brasileiros modernos — Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira etc. — e publicou essas traduções em 1939.

No contexto da perseguição nazista aos judeus, Paulo Rónai e família, que eram judeus, foram perseguidos e submetidos a trabalhos forçados. Rónai conseguiu fugir da Hungria, com a ajuda do mesmo Ribeiro Couto que o havia auxiliado nas dúvidas de português e que agora era cônsul do Brasil na Holanda. Ribeiro Couto conseguiu que Rónai obtivesse do governo brasileiro um convite para viver no Brasil e se aperfeiçoar nos estudos do português. Rónai chegou ao Brasil no início de 1941 e naturalizou-se brasileiro em 1945.

No Rio de Janeiro, Rónai empregou-se em colégios e liceus como professor. Deu aulas de francês e latim em instituições como o Colégio Metropolitano, Liceu Francês e Colégio Pedro II. Alcançou respeito e renome como especialista em francês e fundou, já final de sua vida, a Associação dos Professores de Francês do Rio de Janeiro. Também publicou obras de ensino de idiomas como Gramática completa do francês, Gradus primus e Gradus secundus.

Paralelamente, desenvolveu brilhante carreira de tradutor literário. Logo nos primeiros dias de sua estada no Rio de Janeiro, conheceu o intelectual Aurélio Buarque de Holanda, que se tornou seu amigo de muitas décadas e lhe ajudou a publicar artigos e traduções. Um de seus projetos de tradução foi Mar de histórias, uma antologia do conto mundial que foi publicada no decorrer de 44 anos. Porém, sem dúvida, um dos projetos de tradução pelos quais é mais lembrado é a tradução francês-português de A comédia humana, de Balzac. Rónai fez parte da equipe de tradução, coordenando os trabalhos e elaborando notas e prefácios para a obra monumental, composta de 17 volumes publicados de 1945 a 1955.

Seu interesse pela tradução não estava evidente somente nos projetos dos quais participava, mas no engajamento em questões práticas do ofício da tradução. Nesse sentido, compartilhava seu conhecimento da teoria e prática da tradução com tradutores neófitos e estudantes. Um dos livros que escreveu relatando sua experiência prática com a tradução foi Escola de tradutores, publicado pela primeira vez em 1952. O livro, elaborado como uma espécie de papo aberto sobre a tradução, foi pioneiro do seu gênero no Brasil e pode, talvez, ser considerado o precursor dos atuais blogs publicados por tradutores na internet.

Na questão da profissionalização do tradutor, Rónai também foi pioneiro no Brasil. Desde os anos 1950, esteve em contato com a Federação Internacional de Tradutores (FIT). Em 1974, criou a ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores), da qual foi também primeiro secretário-geral.

Paulo Rónai faleceu em Nova Friburgo (RJ) em 1992, aos 85 anos de idade. Durante mais de 40 anos, além de ser um dos intelectuais mais respeitados do Brasil, foi um dos tradutores mais prestigiados do país, reconhecido também com prêmios internacionais e convites para lecionar no exterior. Até hoje, é tido como um exemplo de grande tradutor e pioneiro na luta pela profissionalização dos tradutores.

Blog Widget by LinkWithin

Tags | Palavras-chave: , ,







2 comments | comentários

  1. Zsuzsanna Spiry says:

    Pesquisa exaustiva sobre a obra de Paulo Rónai, tanto na Hungria como no Brasil, e análise de sua atividade de crítico literário, publicado na Hungria, no site da Livraria Eletrônica Nacional da Hungria MEK – Magyar Elektronikus Könyvtár http://mek.oszk.hu/07200/07245/ acesso ao texto completo da dissertação apresentada à USP em junho/2009, “Paulo Rónai, um brasileiro made in Hungary”. Atenciosamente, Zsuzsanna Spiry

  2. Fabio Said says:

    Oi Zsuzsanna, obrigado por divulgar sua tese sobre o Paulo Rónai. Pelo que vi rapidamente, é um trabalho de peso e interessante. Parabéns! Vou ler as 202 páginas assim que tiver um tempinho.

Please leave a comment | Comente aqui

Please write your comment here: | Escreva seu comentário aqui:

(*) Required information | Informação obrigatória
(**) Don't worry, it won't be published | Não se preocupe, que não será publicado


Biblioteca do tradutor: | Translator's Bookshelf:

biblioteca do tradutor biblioteca do tradutor biblioteca do tradutor biblioteca do tradutor