
Não importa se o tradutor é que teve iniciativa de procurar o cliente ou se o cliente é que procurou o tradutor: muitas vezes o cliente acaba pedindo o famoso teste de tradução. São as agências de tradução que costumam pedir um teste ao tradutor. Mas as editoras não só pedem, como também exigem um teste. Clientes diretos também às vezes pedem. Mas na imensa maioria das vezes, o teste é gratuito. Para o tradutor, será que vale a pena fazer um teste gratuito, que equivale a trabalhar de graça para um cliente? Para o cliente, será que o teste de fato evidencia os pontos fortes e fracos do tradutor? Certo ou errado, justo ou injusto, o teste de tradução tornou-se uma espécie de padrão do mercado de tradução.
Antes de mais nada, é bom salientar os limites de razoabilidade de um teste de tradução. As características e exigências do teste dependem do cliente, mas cabe ao tradutor aceitá-las ou não. O problema é que muitos tradutores, principalmente em formação ou em início de carreira, aceitam qualquer teste exigido pelo cliente, sem questionar se ele é razoável e padrão ou se é abusivo e anormal. O limite de razoabilidade pode variar de tradutor para tradutor, mas isso não nos impede de mencionar cinco itens que podem ser uma espécie de check list para tradutores pensar sobre os testes que recebem:
- 1. Qual a quantidade de palavras a traduzir durante o teste? Já ouvi de muitos colegas que um teste de 250-350 palavras é o razoável. Pode ser. De qualquer forma, traduzir 1000 palavras em um teste pode muito bem ser considerado abusivo. Dependendo do grau de dificuldade, mil palavras são traduzidas em não menos que algumas horas, e isso rouba do tradutor um tempo que ele poderia estar empregando para trabalho remunerado. Por outro lado, testes de editoras têm muito mais que isso. É normal traduzir um capítulo ou dois para editoras como teste de tradução, chegando facilmente a 2.500 palavras. O ideal é o tradutor calcular o tempo que seria gasto com o teste de tradução, para determinar se ele pode se dar ao luxo de fazer esse trabalho de graça e deixar de ganhar dinheiro. Claro que teste de tradução pode ser visto como uma estratégia de marketing (aquisição de clientes), mas se seu tempo para marketing já é bem empregado em outras estratégias, talvez você não queira investir mais tempo fazendo testes de tradução.
- 2. O teste é retirado de um projeto de tradução real, já concluído, revisado e entregue ao cliente? No caso de agências de tradução, um projeto de tradução real, já concluído, revisado e entregue ao cliente já passou pela avaliação de diversos profissionais e por isso mesmo seria ideal para ser usado como teste de tradução para novos tradutores. Nesse caso, os parâmetros de comparação serão mais objetivos e o teste corresponderá mais ao dia-a-dia da agência. Por outro lado, um teste de tradução composto por um texto que se acha facilmente traduzido na internet é uma besteira sem tamanho (prejudica o cliente). Outra besteira (que prejudica o tradutor) é quando o cliente direto manda o tradutor traduzir gratuitamente parte de texto para ver a qualidade do tradutor, antes de contratá-lo para a tradução integral desse mesmo texto; o que garante ao cliente que o teste foi realmente feito pelo tradutor?
- 3. O teste será avaliado por profissional competente, nativo do idioma de chegada? Talvez o item mais essencial de um teste de tradução seja o avaliador. Imagine se o avaliador for uma pessoa que não é tradutor profissional, ou que não seja falante nativa do idioma de chegada – um teste assim tem tudo para ser mal avaliado. Felizmente, muitas agências estão cientes desse detalhe e usam seus próprios tradutores experientes para avaliar os novatos. Mesmo assim, ao receber um teste, nunca é demais perguntar se o avaliador têm as devidas competências e habilidades.
- 4. O tradutor receberá um retorno sobre o resultado do teste? Já ouvi falar de clientes que somem depois do teste, sem se dar ao trabalho de informar se o tradutor passou ou não, e por quê. Por outro lado, há clientes (agências, principalmente) que não só dão retorno, como também avisam, logo ao enviar o teste, quando exatamente o tradutor receberá esse retorno e, quando on fazem, oferecem um relatório circunstanciado sobre o desempenho do tradutor no teste.
- 5. Quais são os parâmetros objetivos do teste? Este item talvez não seja tão essencial como tópico de conversa entre o tradutor e o proponente do teste. Mas vale a pena pensar a respeito. Um teste só é teste de verdade se tiver parâmetros objetivos. Não me refiro a gabarito, mas sim a coisas como uniformidade de terminologia, quantidade de erros gramaticais, quantidade de erros de tradução, quantidade de termos não traduzidos, tradução demasiadamente livre, tradução demasiadamente literal etc. – tudo isso é quantificável e pode se alimentar uma bela planilha de “notas” para compor um escore global do teste. Acredite: prova de tradução não é prova de matemática, mas é possível, sim, quantificar a qualidade de uma tradução.
Com base nos itens acima, é possível vislumbrar alguns prós e contras dos testes de tradução. Vamos aos prós:
- Para o cliente, um teste bem idealizado fornece informações não somente sobre as qualidades tradutórias do tradutor, mas também sobre a habilidade do tradutor de cumprir instruções. Os testes de traduções costumam ser acompanhados por instruções precisas: prazo de entrega, tradução de determinados termos, instruções sobre estilo, como lidar com datas e números etc. Se o tradutor souber cumprir essas instruções, ele estará apto a seguir instruções em situações reais.
- Para o tradutor, é uma chance de conhecer o gerente de projetos (pessoa responsável pela distribuição de projetos de tradução entre tradutores e revisores) do cliente. A química entre gerente de projetos e tradutor tem que ser boa para poder funcionar a longo prazo. Isso se percebe em uma conversa ou troca de e-mails sobre o teste. Além disso, o teste também pode dar ao tradutor uma ideia sobre o tipo de projeto que o cliente pode lhe dar no futuro; com base nisso, o tradutor pode decidir se quer mesmo trabalhar para essa agência e se é capaz de traduzir esse tipo de texto sem prejuízos.
Agora, os contras:
- Para o cliente, há pouquíssimos meios de ter certeza de que foi o próprio tradutor que traduziu o teste e não outra pessoa. Dessa forma, a seriedade e eficácia de um teste de tradução ficam comprometidas. Na maioria das vezes, uma das partes simplesmente assume que a outra agirá com correção e honestidade. É um “acordo de cavalheiros”. Mas todos nós conhecemos o ser humano e seria ingenuidade afastar a possibilidade de trapaças.
- Para o tradutor, um grande problema é como saber se o cliente não vai simplesmente se apoderar do teste traduzido, usá-lo como tradução real e depois descartar o tradutor sob a alegação de que o profissional não passou no teste. Outro problema é que os testes, sendo gratuitos, podem ser economicamente inviáveis para o tradutor; eles têm um custo que muitas vezes é ignorado: o custo das horas de trabalho gastas com uma atividade não-remunerada.
Finalizando estas considerações gerais sobre testes, saiba que há, sim, clientes que pagam por testes de tradução. Não mencionei isso antes para não dar a impressão de que essa prática seja corriqueira ou padrão no mercado. Teste remunerado é uma prática excepcional, extraordinária, raríssima, mas existe. Às vezes, é o próprio tradutor que propõe o teste remunerado. De qualquer forma, é uma prática que não se encontra em todos os mercados regionais. No Brasil, desconfio que seja mais difícil encontrar quem aceite pagar por um teste de tradução do que na Suíça, por exemplo. E, de resto, o fato de um teste ser remunerado não o isenta de alguns problemas dos testes de tradução em geral.
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