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O problema da dublagem generalizada em cinemas alemães [The problem of widespread film dubbing in German movie theaters]

By Fabio M. Said | Feb 6, 2010 | Categories: português, translation|tradução | 3 comments


Uma coisa que me irrita muito na Alemanha é ir ao cinema e ser obrigado a ver o filme dublado em vez de legendado. Filmes legendados só há em cinemas de arte e cinemas especiais de grandes centros urbanos. Na televisão, todos os filmes são dublados, como no Brasil, mas filme dublado no cinema ninguém merece! Digo isso não porque amo ler legendas, nem porque quero me gabar de poder ver filmes em inglês, francês e espanhol (além do próprio alemão) sem precisar ler as legendas. É porque, como fã de cinema, quero ouvir a voz dos atores, quero sentir a emoção original que eles sentiram na cena. Não ouvir a voz original dos atores é como assistir a um filme pela metade. E a emoção original nenhum dublador consegue passar. Até porque os dubladores costumam ter uma impostação de voz tão diferente e artificial. Isso vale não só para os dubladores alemães, mas também para os dubladores de São Paulo. Não quero encrenca com os paulistas, mas basta comparar os filmes da tv brasileira dublados pela Herbert Richers (Rio de Janeiro) com os dublados pela (AIC São Paulo) – a diferença é gritante: os cariocas falam seus diálogos naturalmente e usando coloquialismos que talvez sejam intervenção dos tradutores ou dos próprios dubladores, sei lá, enquanto os paulistas seguem muito perto a entonação do inglês americano e do espanhol – tem mais alguém que percebe isso ou será que estou viajando na maionese?

Voltando à Alemanha: é preciso dar um crédito à tv alemã, onde as grandes cerimônias de premiação em inglês (Oscar, Grammy e premiações da MTV, por exemplo) são transmitidas em inglês mesmo, sem tradução e sem legendas (as legendas só são acrescentadas na segunda exibição, quado as há). Isso no Brasil seria impensável. Mas por outro lado, as transmissões dessas cerimônias ocorrem de madrugada, quando a audiência deve ser pífia e, portanto, pode não justificar a tradução.

Enfim, não encontro uma lógica nessa mistura de dublagem generalizada nos cinemas da Alemanha. A Alemanha é um país cosmopolita. Em qualquer esquina de qualquer cidadezinha você pode ouvir idiomas como turco, grego, polonês e italiano e nos grandes centros urbanos não é raro ouvir espanhol, inglês, francês, holandês e até português brasileiro! Por que os filmes de cinema não são legendados? Seria porque o público tem preguiça de ler as legendas? Seria comodismo das empresas de distribuição?

É por essas e outras que quando vou ao Brasil faço questão de ver vários filmes só para matar saudade do bom e velho cinema legendado. Nesse sentido, o Brasil está muito, mas muito à frente da Alemanha.

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3 comments | comentários

  1. Fernando says:

    Existem motivos “culturais” para isso, uma espécie de crença que se os filmes forem dublados eles estarão valorizando a língua alemã e protegendo a cultura do país ou algo do tipo, isso não ocorre só na Alemanha, na França também é assim por exemplo. Um raciocínio um tanto equivocado, mas é o que vigora.

  2. Isac Nunes says:

    Caro Fabio:

    Não é somente na Alemanha que se dublam filmes para o cinema. Isso ocorre, de forma generalizada, na maioria dos países europeus. Além das cinematecas e cineclubes, em pouquíssimas salas, é possível ver filmes em versão original. Nos anúncios publicados nos roteiros dos jornais espanhóis, por exemplo, aparece quase como exceção a informação «V.O.S.» (‘versão original subtitulada’).

    Conheço pessoas na França que nunca viram um filme legendado, que acham que seria inimaginável tal exercício, pois não dá para ver toda a imagem, enquanto se lê, ou que não dá para ler toda a informação, pois os personagens falam rápido. Então, perde-se muito (!).

    Defendo os filmes legendados, não somente por ser costumeiro, no Brasil, vê-los dessa maneira, mas, como V. mesmo apontou, por haver expressões que não se reproduzem na dublagem, e a impostação ser majoritariamente artificial, sem contar o aspecto linguístico, que fica completamente ofuscado.

    Tomo como exemplo os filmes do realizador turco-alemão Fatih Akin: Primeiramente, ‘Gegen die Wand’ (‘Contra a parede’), ao qual assisti duas vezes e recomendo: lamentavelmente, vi-o dublado em castelhano e em francês. Quando era na língua de Proust, havia um detalhe interessante: os personagens do filme são turcos, vivem na Alemanha e falam, na maioria das vezes, em alemão. Então, quando se expressavam em alemão, eram dublados em francês. Quando havia pequenos diálogos em turco, estes eram legendados. Em dado momento, a ação transfere-se à Turquia, os personagens passam a falar somente em turco, e o filme torna-se somente legendado.

    Há um segundo filme do mesmo realizador, ‘Auf der anderen Seite’ (‘Do outro lado’), que igualmente vi duas vezes: primeiramente, vi-o dublado em espanhol, depois, legendado em francês. Desnecessário é dizer que na segunda vez foi que realmente assisti a esse filme, no qual o realizador passa dum idioma a outro, em diversas oportunidades. Novamente, os personagens são turcos, que vivem na cidade alemã de Bremen, inicialmente. Num segundo momento, o filho dum imigrante turco, professor numa universidade alemã, movido por uma fatalidade, viaja a Estambul, em busca duma pessoa. Por questões que não vêm ao caso revelar, termina por ficar ali e comprar uma livraria alemã. Há, portanto, todo um vaivém linguístico no filme que a dublagem simplesmente exclui.

    São detalhes importantes? Para quem vive no universo linguístico em que vivemos, muitíssimo. Essa passagem dum idioma ao outro revela-nos muitas informações: a negação duma cultura, inserção do personagem na realidade do outro, a questão da interculturalidade, enfim, a troca dum idioma pelo outro, no contexto dos turco-alemães enfocados em ambos os filmes, é um dado extremamente pertinente que, devido à dublagem, não se poderia apreciar com a devida clareza.

    Saudações,

    Isac Nunes

  3. Fábio, ótimo artigo!
    Concordo com você. Na Alemanha, sempre senti falta dos filmes legendados que, no Brasil, foram a minha porta para o aprendizado de outras línguas. Mesmo quando criança, eu não me incomodava nem um pouco de ler as legendas na Noviça Rebelde e estou convencida de que foi assim que comecei a aprender inglês. Aliás, até mais cedo. Antigamente, quando havia TV em preto e branco (pronto, me entreguei), havia uns desenhos animados americanos em que os bichinhos cantavam, enquando uma bolinha ia pulando de uma sílaba para a outra de uma legenda que aparecia na tela com o texto em inglês mesmo. Nunca mais esqueci disso.
    Eu até acho que as dublagens alemãs são muito bem feitas, mas dublagem, para mim, é uma pasteurização que tira o gostinho característico de cada filme.
    Agora, vou começar a prestar mais atenção às dublagens brasileiras e ver se também noto essa influência carioca, ou paulista. Confesso que nunca tinha percebido isso.

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