A edição mais recente (29/10-04/11) do Jornal da Comunidade, semanário de Brasília, contém uma matéria sobre a profissão de tradutor. Tive uma pequena participação nessa matéria como entrevistado, tentando passar ao público em geral uma imagem mais realista do mercado de tradução. Mas, como se sabe, uma matéria de jornal não tem a obrigação de ser completa e, por isso, a título de complementação das informações da matéria, remeto o leitor aos mais de 1.070 artigos e páginas deste blog sobre os mais diversos aspectos da profissão de tradutor (os artigos estão acessíveis através da seções Categorias e Palavras-chave, na coluna direita do blog, ou então através das caixas de pesquisa do Google espalhadas pelo blog inteiro). E também remeto os mais interessados ao meu livro Fidus interpres: a prática da tradução profissional, que é mencionado en passant na matéria e contém uma introdução muito abrangente ao universo dos tradutores profissionais (para visitar a página de informações sobre o livro, clique aqui).
Veja abaixo a transcrição da matéria do Jornal da Comunidade:
Profissão sem fronteiras
Mais que bons conhecimentos sobre outras línguas, o tradutor deve ter excelentes atributos intelectuais e conhecer outras culturas com profundidade. A profissão, no entanto, não é valorizada pelo mercado de trabalho
TATIANE ALVES
Redação Jornal da ComunidadeA origem de um tradutor é mais significativa do que se imagina. Havia, desde os tempos de Alexandre Magno, uma tradução da Bíblia, elaborada pela comunidade judaica de Alexandria. Com a expansão do Cristianismo pelo Ocidente, o conhecimento do grego foi se perdendo e o latim passou a ser a língua mais usada pela maioria dos povos.
Sofrônio Eusébio Jerônimo foi o primeiro a traduzir a Bíblia em latim e, como todo bom tradutor, foi a Belém aprender mais sobre a língua. Para o aprimoramento de quem almeja ser tradutor, ir ao país da língua pretendida é importantíssimo. Mas é fundamental não esquecer que, como toda profissão de nível superior, requer muita leitura e dedicação.
Antigamente tradução era trabalho para secretária, por isso no dia 30 de setembro também se comemora o dia dela. A profissão alcançou novos horizontes. Ter um tradutor hoje é necessário em diversos setores da sociedade e alvo incisivo na Copa do Mundo, que será sediada no Brasil.
Dizem que ser tradutor é ser bilíngue, trilíngue e quem tem formação superior. Na verdade, ser tradutor ultrapassa os padrões técnicos da profissão. É desabrochar na mente de seres humanos, conhecimentos que antes eram pouco difundidos em razão das barreiras do código linguístico.
A carreira, apesar de importante, é pouco valorizada pelo mercado de trabalho. O tradutor costuma ser um profissional liberal autônomo, mais conhecido como freelancer. E isso é algo determinado pelas leis do mercado, o qual procura cada vez mais profissionais terceirizados. Embora existam postos de tradutores, secretários bilíngues e intérpretes em diversos órgãos do Estado, o fato de os tradutores serem na maioria freelancer torna impossível estabelecer uma média salarial no Brasil ou em qualquer outro país.
A profissão permite ir além de tradução de livros, até porque hoje, não só no Brasil, mas no mundo, trabalhar só na tradução de livros não é economicamente vantajoso para a categoria.
Juliana Fragoso, coordenadora do curso de inglês Speed up Idiomas, diz que a procura aumentou, sim, mas ainda não alcançou o esperado. “É a cultura brasileira. Deixa tudo para última da hora. Mas aprender um novo idioma requer tempo e as pessoas precisam se conscientizar disso”, alerta Juliana.Dificuldades da profissão
O brasileiro Fábio Said, que reside na Alemanha, destaca duas das muitas dificuldades na profissão. Ele conta que, no início da carreira, o maior desafio foi encontrar clientes e comprovar perante eles que sua formação profissional era suficiente para fazer um trabalho de qualidade.
Tradutor profissional desde 1993, Fábio traduz sobretudo textos jurídicos e financeiros do inglês e alemão para o português. Atualmente é editor do blog de tradução e autor do livro Fidus Interpres, manual prático com 256 páginas sobre a profissão de tradutor e sobre o mercado de trabalho no século XXI.
O segundo item importante é o conhecimento aprofundado do idioma. “Não adianta o sujeito ter doutorado em língua inglesa ou alemã se ele não sabe se expressar com excelência no próprio idioma materno, em diversos registros linguísticos e em jargões especializados,” observa Fábio.
Ser tradutor não é para qualquer um Em termos de reconhecimento, a carreira deveria ser mais valorizada, pois exige muito esforço intelectual.“Há gente que acha que tradutor é dicionário ou que para ser tradutor basta passar três anos fazendo intercâmbio nos Estados Unidos”, ironiza Fábio. “Ser tradutor é coisa para profissional, não pense que só porque alguém é bilíngue está apto a traduzir materiais complexos”, pondera.
Sandra Pérez, mestre em linguística pela Universidade de Brasília (UnB), ressalta que “a população não costuma conhecer a complexidade da atividade tradutória, normalmente vista como uma mera transposição de palavras de uma língua para a outra, e não como uma reescrita, em que outros muitos fatores, como os contextuais e os culturais, também estão implicados”, comenta.
Sandra Pérez tem experiência como tradutora de português-espanhol em órgãos públicos e como autônoma. Também exerceu as atividades na área de ensino de espanhol como língua estrangeira e como gestora cultural e administrativa.
Copa pode render boas oportunidades
Desde que o mundo se globalizou, a profissão de tradutor ganhou destaque e passou a ser cada vez mais exigida no mercado de trabalho. Com a Copa do Mundo, as oportunidades de trabalho crescem cada vez mais. “A profissão ganhou e ganhará ainda mais destaque, especialmente nos campos em que é requerida uma especialização maior, como o de intérprete”, avalia Sandra Pérez.Brasília precisa de bons profissionais
A coordenadora do mestrado em estudos de tradução (Postrad) na UnB, Germana Henrique Pereira, considera o mercado de trabalho em Brasília para tradutor bastante atrativo, mas, de modo geral, a cidade precisa cada vez mais de tradutores experientes. “A demanda é sempre crescente, daí a relevância que o curso de letras-tradução da Universidade de Brasília tem com relação ao atendimento a essa demanda, tanto no Distrito Federal como no Brasil”, avalia Germana.
Na profissão o tradutor pode trabalhar com legendagem de filmes, tradução juramentada, tradução nas áreas técnico-científicas, literárias e jornalísticas; intérprete de conferência, com terminologia e lexicografia; pesquisa e consulta em diversas áreas acadêmicas, entre tantas outras funções.
A professora Germana acrescenta que o curso de letras-tradução da UnB prepara o aluno para ser tradutor de textos escritos em diversas áreas, como as de textos técnico-científicos, literários, jurídicos, econômicos e de ordem geral, como os textos de ciências humanas e jornalísticos. E acrescenta que dominar os idiomas de trabalho é insuficiente. “O tradutor deve ter um bom nível de formação intelectual. É, e deveria ser, antes de tudo, um pesquisador; ter alma curiosa e inquieta e jamais se contentar com soluções prontas e que parecem fáceis e rápidas”.Fábio Said destaca que a tradução, infelizmente, é uma área desvalorizada financeiramente. Trabalhar com tradução de livros, por exemplo, não é mais tão lucrativo assim. Porém, ainda há áreas em que o tradutor pode ter um bom retorno financeiro.“Trabalhar com tradução financeira e jurídica é muito mais lucrativo para mim, por vários motivos. Aliás, boa parte dos tradutores que conheço que traduzem livros fazem o mesmo que eu (dedicam-se a outras áreas de tradução mais lucrativas) ou têm outra profissão que lhes garante o sustento”, conta Fábio.
Enquanto as editoras encontrarem quem aceite traduzir por pouco dinheiro, o problema não vai acabar. E não é só um fenômeno do Brasil. “Minha experiência no mercado da Alemanha e os contatos em outros países demonstraram que a situação é geral e que há grandes profissionais que não trabalham com tradução de livros simplesmente porque o pagamento oferecido pelas editoras não condiz com a qualificação”, exemplifica Fábio Said.
(Fonte: Jornal da Comunidade, ed. de 29/10/2011 a 04/11/2011)

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” Aliás, boa parte dos tradutores que conheço que traduzem livros fazem o mesmo que eu (dedicam-se a outras áreas de tradução mais lucrativas) ou têm outra profissão que lhes garante o sustento”
Acho que depende muito para qual editora vc está traduzindo. De qualquer forma, com o número de tradutores que traduzem exclusivamente livros, acho muito difícil defender isso. Pelo que vejo nas listas, houve melhora e não piora na remuneração das editoras. Sugiro que faça uma enquete na Literatti, vc vai ver que a realidade não é excelente, mas não é tão sombria quanto vc pinta no blog e no livro (aliás, os trechos do livro que falam de tradução de livros chegam, francamente, a serem ofensivos.)